O Anti-Herói II - Presságio Comum
E lá estava eu andando pelas ruas urbanizadas de algum lugar, era dia com pouca claridade. Não sei dizer que horas era, mas parecia ser o começo de uma manhã ou um final de tarde, o céu nublado e uma fina garoa acompanhava os meus passos.
Não sabia exatamente onde chegar, só continuava andando, ora seguindo reto, ora virando a esquerda e a direita, mas sempre em frente, não podia voltar........ pois sabia que se o fizesse tudo viraria um caos! Não havia pessoas, era só eu, as casas, e as grandes árvores nas calçadas que deixavam tudo mais escuro ainda. Apesar de não reconhecer nada por onde passava, tinha a certeza de já ter estado naqueles lugares, eram tão familiares, talvez por isso não me sentia perdido e nem com medo de não conseguir achar o caminho de onde deveria chegar, por mais que demorasse não tinha problema, estava tudo sob controle.
A garoa havia parado e uma névoa densa foi baixando e tomando conta de tudo ao meu redor, até ao ponto de não enxergar mais nada. Parei por um instante, aquilo estava me sufocando, não respirava direito, (haaaaaa preciso respirar) entrei em pânico, tentava puxar o ar e não vinha nada, fui agachando devagar até me deitar no chão, perder as forças e fechar os olhos... Quando abri estava numa espécie de maca dentro de uma sala, (onde estou ??? alguém me ajudou ?? como cheguei aqui ?) estava confuso naquele momento, nada fazia sentido.
Sentei e respirei fundo, (que alivio, como é bom respirar) estava bem, levantei e sai da sala. Andando pelos corredores percebi que estava em um hospital, (mas cadê todo mundo?). Não havia visto ninguém, encontrei as escadarias e fui descendo, tinha que sair dali! As escadas pareciam não ter fim, quando ouvi vozes do lado de fora, olhei pela janela e mesmo com o vidro embaçado e sujo consegui ver pessoas (até que enfim). Continuei descendo o que parecia ser a última curva da escada quando ouvi alguém chamar, a voz vinha de cima, prontamente comecei à voltar (quem será que me chama?). Neste momento ouço discussões e uma gritaria do lado de fora, parecia que aquele alvoroço viria até mim, agora tinha que voltar mesmo, quando novamente a voz me chama só que vindo de baixo, me viro e em uma fração de segundos sinto a bala traçante atravessando minha garganta, levei a mão e senti o sangue escorrer por ela, fui caindo e novamente a escuridão tomou conta de mim......... Somente uma questão vinha em meus pensamentos (é assim que vai terminar, acabou aqui?)...
Acordei e tinha alguém ao meu lado que me disse "venha comigo''. Me coloquei de pé e caminhei junto a ele, logo percebi que estava no meio de alguma cidade movimentada (me lembrou o centro de São Paulo) só que tudo estava estranho, a cidade estava sem brilho, sem luz, muitas pessoas passavam ao nosso redor no seu vai e vem rotineiro, mas parecia que nenhuma nos via. As cores não tinham vida, era fúnebre, logo perguntei o que estava acontecendo, porque estamos aqui, porque ninguém fala com nós!?! Prontamente o estranho acompanhante respondeu, "E porque falariam? Estamos mortos, você morreu, e eu também, há muito tempo".
Tal noticia seria um choque para qualquer um, mas para mim não foi! É quase como se eu já esperasse por isso. Aquelas palavras não me assustaram, por mais estranho que pareça senti uma calmaria, a sensação de liberdade que tomou conta de mim, como se tivesse escapado das algemas, era surreal, algo indescritível... Naquele momento só pensava que estava livre! Livre de um mundo que ficava para trás... Não perguntei mais nada, pensei em tudo que havia vivido até ali, momentos, recordações, e me questionava se alguém sentiria minha falta, ou se eu sentiria a falta de alguém, existia um amor para se lembrar também? Alguma coisa que valesse à pena!? Talvez houvesse respostas para todas essas perguntas, mas não importava mais, eu tinha atravessado uma porta e deixado a minha vida para trás, não havia mais nada à fazer, só continuar andando........ Mas tudo foi interrompido por um forte barulho de apito! Despertei estranhamente como se meu espirito tivesse sido jogado para dentro do corpo com muita violência, olhei o relógio e vi que já era o segundo apito, não dava para dormir nem mais cinco minutos, tinha que levantar, e ver que a única porta que se abriria era a da minha casa, rumo ao trabalho rotineiro de sempre.
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