domingo, 13 de março de 2016

O Anti-Herói III - Ilusões
   
     Eu estava naquela casa, que parecia existir em um passado muito distante, acompanhado de algumas pessoas conhecidas, (mais tarde não lembraria de nenhuma delas, é sempre assim) o resto dos convidados eram todos estranhos para mim. Mesmo assim não fiquei inibido, andava tranquilamente por elas, me sentia a vontade, conversas, piadas, sorrisos, gargalhadas, todos se divertiam...
     Fui até onde serviam as bebidas e pedi algo, depois de alguns goles alguém chegou ao meu lado, e no pé do ouvido disse:
- Já se esqueceu do que aconteceu?
Respondi com certo incomodo:
- Não! Não esqueci...
 Como esquecer a humilhação, a decepção nos olhos das pessoas, deixei o copo num canto.......não preciso de você para ser interessante, nem me interessa ser, isso daria trabalho, as pessoas criam expectativas quando você tem algo à oferecer, eu não era lembrado nas horas boas, mas também não era cobrado nas horas ruins, e parecia estar bom do jeito que estava!
     De repente me peguei pensando se essa condição mediana era realmente boa para mim, puxei as lembranças na memória e vi que deixei passar muitas coisas por ser assim, oportunidades profissionais, uma melhor condição social, amigos e claro, amores....  muito deles! Mas por incrível que pareça não me arrependia de nada (ou falsamente acreditava não se arrepender).
     Voltei minha atenção para festa, havia chegado mais gente, e passei a ficar sem lugar, procurei os conhecidos mas todos criaram seus próprios grupos onde eu não fazia mais parte, (o que fazer então!?). A solução era simples, ir embora como fiz em diversas outras ocasiões, procurei a saída mas não encontrava (cadê a porra da saída), saia de um lugar entrava em outro e nada. Comecei a ficar angustiado, eu tinha que ir embora, as pessoas pareceram notar e me olhar com desprezo e deboche, apontavam e julgavam só com olhares, senti que jogavam todos meus erros e defeitos na minha cara sem a menor compaixão (eu preciso sumir, tenho que sair daqui)...
     Em meio à tudo isso ela apareceu, era um raio de luz dentro daquele céu nebuloso, se aproximou de mim sorrindo, me abraçou e disse:
- Oi!
Bem em meu ouvido, uma voz suave que afastou toda aura escura que emanava naquele momento. Paralisei naquela hora! Não acreditava que pudesse vê-la depois de tantos anos, mas estava ali bem na minha frente, pegou minha mão e levou-me para varanda.
- A noite está perfeita.
Disse ela...
Respondi com um tímido sorriso, não conseguia falar nada, e realmente a noite estava perfeita, o céu limpo e iluminado pela graciosidade da lua completavam aquele cenário. Disse o quanto sentia minha falta e que pensava muito em mim! Eu só conseguia contemplar tanta beleza, o sentimento era inexplicável, uma mistura de tudo que era bom. Quando criei coragem para falar, ela pôs a mão em minha boca...
- Não diga nada.
 Aproximou seu rosto do meu e me beijou......uma sensação mágica!
     Eu me sentia vivo cheio de felicidade, não queria que aquele momento terminasse nunca.......  mas algo estranho aconteceu, as imagens foram sumindo se distorcendo e ela foi se afastando, se misturando com a multidão, fui atrás e em pouco tempo não conseguia mais vê-la, entrava em um lugar saia em outro e não à encontrava, já estava desesperado. Notei que as pessoas também começaram à sumir em cada parte que eu entrava. A agonia de estar perdendo algo ou alguém muito importante tomava conta de mim.... O lugar foi escurecendo e ficando cada vez mais vazio, as portas iam se fechando a cada cômodo que eu saia, um frio incontrolável me partia ao meio.....  até que acordei e vi que a casa realmente estava vazia, não havia ninguém ali além de mim! Me peguei deitado no chão da sala, sobre um fino tapete, descoberto com a porta da varanda aberta soprando o ar gélido da madrugada.Toda aquela aspiração foi fruto de um sonho, apenas um sonho de uma péssima noite (não acredito, parecia tão real...). O relógio marcava 3h17... Só me restava dormir novamente, na esperança de voltar naquela casa para encontra-lá, e não acordar nunca mais para não perde-lá! Mas foi em vão, não se sonha a mesma coisa duas vezes só porque quer.... É algo que acontece espontaneamente...
     Pela manhã levantei e fui trabalhar, estava de volta para realidade com o sentimento de frustração e muito sono pela noite mal dormida, mas foi bom encontra-lá de novo...



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